Perda de peso: melhor devagar ou depressa?
Uma dúvida comum nos consultórios de endocrinologia diz respeito ao ritmo ideal de perda de peso. Esse é um assunto polêmico, pois tradicionalmente especialistas costumam sugerir uma perda de peso lenta e gradual. Entretanto, a perda rápida de peso parece ganhar cada vez mais adeptos, que defendem a tese de que seus benefícios superariam os riscos, ao contrário do que costumamos pensar. Desta forma, qual a conduta correta? Perder peso de forma lenta ou rápida? Perda de peso de forma lenta Perda de peso lenta, ou seja, abaixo de 0,5 kg por semana, tem a vantagem de ser um método mais fácil e realista de ser cumprido. A adaptação a esse método é mais simples, não há grandes restrições alimentares e preocupações com carências nutricionais em decorrência da redução do aporte calórico. Entretanto, existe o fator motivacional, já que realmente é difícil manter a maioria dos pacientes satisfeitos com resultados tão modestos, principalmente naqueles que necessitam perder muito peso e, desta maneira, há uma grande chance de abandono do tratamento. Isso explica, em partes, o fracasso em médio e longo prazo da maioria dos métodos dietéticos, incluindo dietas hipocalóricas que buscam perdas discretas e constantes de peso. Perda de peso de forma rápida Por outro lado, perder peso depressa, em um ritmo superior a 1,5 kg por semana em média, do ponto de vista emocional, funcional ou mesmo estético é realmente motivador e parece ser determinante em manter o paciente focado em um programa de mudança de estilo de vida. Observamos esse comportamento, por exemplo, em pacientes submetidos a cirurgia bariátrica, que rapidamente perdem peso e melhoram na mesma proporção aspectos do humor, locomoção, quantidade de medicações utilizadas para doenças crônicas como diabetes, hipertensão, etc, ou seja, não dá para negar que há benefícios em perder peso de forma rápida. Neste caso a questão é saber de que maneira o paciente emagreceu. Sabemos que hoje existem diversas estratégias para perda de peso rápida, algumas chamadas de “dietas da moda”, cientificamente não testadas e cujos riscos à saúde em médio e longo prazo relacionados às carências nutricionais são desconhecidos (ex: dieta Dukan, Whole 30, etc). Métodos dietéticos muito restritivos só deveriam ser indicados por médicos e nutricionistas, sob constante supervisão e por curto período de tempo e já tendo sempre em vista uma transição para uma dieta tradicional de baixa caloria para evitar o “efeito sanfona”. Além disto, estudos mostraram que os resultados em médio e longo prazo comparando métodos mais restritivos com dietas tradicionais de baixa caloria não se mostraram superiores, exatamente pela dificuldade de aderência destes pacientes por um longo período. Perder peso depressa é realmente animador, mas cobra um preço mais alto. Será o ritmo de perda de peso o principal fator determinante para reganho de peso ou há outros fatores envolvidos? Parece que o maior risco de reganho de peso está mais relacionado ao total de peso perdido, ao histórico individual de obesidade e tentativas prévias de perder peso do que com a velocidade da perda de peso em si, ou seja, é mais difícil manter o peso controlado de indivíduos que emagreceram muito, por exemplo, 20 kg, 30 kg, e que já estiveram obesos por vários anos do que naqueles que precisaram perder menos peso e cujo histórico de obesidade ou sobrepeso não é tão antigo, independente da velocidade de perda de peso. Muitos, inclusive, serão obrigados a utilizar medicamentos para perda e manutenção do peso por vários anos. Por conta disso é que insistimos tanto na prevenção dos casos de obesidade na infância e adolescência. Quanto mais cedo engordamos, maior será a tendência de desenvolvermos uma espécie de “memória metabólica” que induzirá modificações hormonais com o objetivo de conservar energia e aumentar o apetite todas as vezes que tentamos emagrecer, seja de maneira lenta ou rápida. Para finalizar, o ideal preconizado para a maioria dos pacientes é o caminho do meio, buscar metas de perda de peso iniciais de 0,5 kg a 1,5 kg por semana, procurando adequar os diferentes métodos de dieta à realidade de cada paciente, observar sempre o grau de motivação e procurar fazê-lo compreender que independente da perda de peso ser rápida ou devagar, a mudança de estilo de vida será definitiva e necessário o apoio de familiares e amigos próximos. Para aqueles que não conseguiram atingir esse ritmo de emagrecimento, devemos reforçar que qualquer perda de peso será benéfica à saúde, por menor que seja. O importante é não desistir. Entretanto, há pacientes que não se importarão em perder peso mais lentamente (até irão pedir isso), enquanto outros estarão mais aptos e dispostos a seguir um plano dietético mais rigoroso. Se for esse o caso, é necessário informar que métodos mais restritivos, como dietas de muito baixa calorias ou com redução importante (mas não eliminação) de algum grupo alimentar como carboidrato e/ou gordura, poderão até ser indicadas, mas como dissemos antes, somente por um curto período e será necessário acompanhamento ainda mais frequente com endocrinologista, nutricionista e psicólogo, com o objetivo de monitorar e tratar possíveis distúrbios nutricionais, eletrolíticos, alterações de hábito intestinal, humor, entre outros, que porventura venham a surgir. Jamais um paciente deverá tentar seguir esses métodos por conta própria e sem saber antes como está sua saúde, tal conduta poderá ser muito perigosa. Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Câncer de Tireóide: o que fazer nesses casos?
A preocupação em ter um diagnóstico de Câncer de Tireóide aumentou nos últimos anos na mesma proporção em que novos casos de nódulos de tireóide são detectados. Embora somente uma minoria desses nódulos descobertos seja maligno, é importante termos noções sobre este tipo de câncer e o que fazer caso sejamos surpreendidos por este resultado. Antes de entrar neste assunto, sugiro uma leitura sobre nódulos de tireóide neste artigo que publiquei antes. Quais são os grupos de maior risco para Câncer de Tireóide? O Câncer de Tireóide é a neoplasia endócrina mais comum do mundo, embora seja considerado raro na população como um todo. Dados dos EUA estimam uma incidência anual de 5 a 9 novos casos/ano para cada grupo de 100.000 mulheres e de 2 a 4 novos casos/ano para cada 100.000 homens. No total, cerca de 5% de todos os nódulos tireoidianos diagnosticados serão malignos. Histórico familiar de câncer de tireóide, exposição à radiação na região do pescoço (ex: técnicos em RX que não usam equipamentos de proteção, pessoas submetidas a radioterapia na região do pescoço ou próximo), características ultrassonográficas do nódulo de tireóide (nódulos sólidos, hipoecogênicos, contornos irregulares, com microcalcificações), nódulos detectados em extremos de idade e no sexo masculino (apesar de em números absolutos mais nódulos de tireóide e de câncer serem diagnosticados em mulheres jovens e de meia-idade, quando um nódulo é detectado no sexo masculino, em crianças, adolescentes ou idosos > 70 anos, suas chances de serem um câncer são maiores), são fatores preditores de maior risco de malignidade, embora a maioria dos nódulos diagnosticados nestas populações de risco continuem a ser benignas. Qual o prognóstico do Câncer de Tireóide e o que fazer caso tenha o diagnóstico confirmado? Felizmente, este é um dos tumores malignos de melhor prognóstico, com uma taxa de sobrevida média em 10 anos de 90% a 95% dos casos. Sua incidência vem aumentando em todo o mundo nas últimas décadas, muito graças ao maior acesso da população a exames como ultrassom de tireóide, capaz de rastrear muitos tumores pequenos, com menos de 1 cm de diâmetro e que, em boa parte dos casos, talvez nem fossem evoluir com crescimento e disseminação ao longo da vida destas pessoas, devido sua evolução lenta na maior parte das vezes, o que não significa que este tipo de câncer deva ser subestimado. Os tipos mais comuns de Câncer de Tireóide, e que também são os de melhor prognóstico, são o Carcinoma Papilífero e o Carcinoma Folicular, respectivamente. É esperado que a maioria dos casos seja resolvida somente com a cirurgia (retirada total da glândula tireóide) e, em algumas situações, a depender do estadiamento do tumor, será necessária a complementação terapêutica com iodo radioativo, que quase sempre é dada em dose única e costuma apresentar muito menos efeitos colaterais do que um tratamento quimioterápico convencional, além de ser altamente específica para estes tipos de câncer. O seguimento destes tumores é feito através de exames como a Tireoglobulina (principal marcador de persistência do tumor), Anti-Tireoglobulina, ultrassonografia do pescoço e, em alguns casos, poderá ser complementada com cintilografia de corpo inteiro, tomografia e PET-Scan. Entretanto, existem exceções de maior gravidade dentre os diferentes tipos de Câncer de Tireóide, como os diagnosticados em crianças, adolescentes e idosos com > 70 anos e os tipos conhecidos por Carcinoma Medular e Indiferenciado, felizmente mais raros. Nestes casos, a terapia com iodo radioativo é ineficaz e diferentes tipos de quimioterápicos serão necessários, além de uma abordagem mais agressiva. No caso do Carcinoma Medular de Tireóide, seu marcador tumoral no sangue para seguimento será a Calcitonina. O tratamento cirúrgico deverá ser feito por Cirurgião de Cabeça e Pescoço e acompanhado em conjunto pelo Endocrinologista, que irá verificar se há indicação de complementação terapêutica com iodo radioativo, monitorará os marcadores tumorais e ajustará a dose do hormônio sintético Levotiroxina, já que estes pacientes evoluirão com hipotireoidismo cirúrgico permanente. E como em todo o caso de câncer diagnosticado, procure manter a calma e o pensamento positivo. As chances de cura são altas e maiores quando tratadas de forma precoce e por profissionais qualificados. Gostou deste artigo? Clique aqui e receba mais informações e dicas de saúde em endocrinologia.
Novos medicamentos para o Diabetes tipo II
A incidência de Diabetes na população vem aumentando de forma assustadora nas últimas décadas, muito por conta do aumento concomitante dos casos de Obesidade e Sobrepeso, influenciado pelo sedentarismo e maus hábitos alimentares, além de fatores genéticos e ambientais. Felizmente, houve avanços importantes no tratamento do Diabetes tipo II com o lançamento há cerca de três anos de uma classe de medicação conhecida por inibidores da SGLT-2. Apesar de já estar no mercado há um certo tempo, benefícios adicionais deste grupo de medicamentos vêm surgindo a cada novo estudo apresentado e novidades ainda virão, tornando assim sua prescrição cada vez mais comum e conhecida pelo público em geral. Notamos ainda que há um grande número de pacientes ou mesmo de médicos que tem pouco ou nenhum entendimento sobre estes fármacos. Quais destes novos medicamentos para o Diabetes tipo II estão disponíveis no Brasil? Em nosso país, estão disponíveis 3 diferentes tipos de inibidores da SGLT-2: Dapagliflozina (Forxiga), Empagliflozina (Jardiance) e Canagliflozina (Invokana). Apesar de haver pequenas diferenças entre estes fármacos, o mecanismo de ação deles essencialmente é o mesmo. O efeito principal é exercido pelos rins, através de um mecanismo que elimina o excesso de glicose do sangue pela urina. Em comparação a medicamentos para Diabetes lançados anteriormente, chamou a atenção diversos aspectos positivos, como risco praticamente ausente de hipoglicemias, perda de peso média de 3 kg em 6 meses, leve redução dos níveis de pressão arterial e ácido úrico, potente no controle glicêmico em comparação a outras drogas, é seguro para os rins, entre outros. Que outras vantagens estes novos medicamentos para o Diabetes tipo II proporcionaram em comparação às anteriores? O que mais chamou a atenção nos estudos sobre segurança destes novos medicamentos para o Diabetes tipo II foram os resultados de um grande estudo feito com a Empagliflozina (Jardiance), chamado EMPA-REG (*). Neste estudo, houve uma redução significativa na mortalidade geral por doenças cardiovasculares (redução de 38%), Infarto não-fatal e Acidente Vascular Cerebral (AVC) não-fatal (redução de 14%) e internações hospitalares por Insuficiência Cardíaca (redução de 35%) em comparação a associação de outros fármacos para Diabetes mais placebo. Outros grandes estudos envolvendo a Dapagliflozina (Forxiga) e Canagliflozina (Invokana) estão em andamento e o esperado é que demonstrem dados semelhantes aos vistos com a Empagliflozina (Jardiance), dada a similaridade entre as medicações. Todos os pacientes podem usar estes novos medicamentos para o Diabetes tipo II? Pode ser prescrita para emagrecimento? Importante ressaltar que apesar de serem ótimas medicações, elas possuem alguns efeitos colaterais e contraindicações para sua prescrição em alguns casos e, portanto, ela não deve ser indiscriminada e sempre necessita ser ponderada pelo médico. O efeito adverso mais comum foi um aumento na incidência de infecções genitais (nas mulheres vulvovaginites e nos homens balanopostites), normalmente de fácil controle e controladas com medidas de higiene íntima. É contraindicado em pacientes portadores de Insuficiência Renal em graus moderados e graves, pois neste grupo o efeito da medicação tende a ser reduzido e, portanto, ineficaz. Seu uso também não foi aprovado para pacientes que desejam somente perder peso. Novos estudos com relação ao tratamento da obesidade e sobrepeso estão em andamento e devemos aguardar os resultados. Como sempre digo, nunca se automedique! Consulte sempre um médico e verifique se tem ou não indicação de utilizar esta classe de medicação. (*). Zinman B, et al. Rationale, design, and baseline characteristics of a randomized, placebo-controlled cardiovascular outcome trial of empagliflozin (EMPA-REG OUTCOME). Cardiovasc Diabetol. 2014;13:102. Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Alimentos Ultraprocessados e Excesso de Peso
Uma boa estratégia para perda peso é evitar alimentos ultraprocessados, que seriam aqueles que possuem baixa ou nenhuma quantidade de comida em sua forma natural ou integral, como batata chips, biscoitos de qualquer espécie, principalmente recheados, nuggets, refrigerantes, sucos industrializados, balas, salsichas, salgadinhos, macarrão instantâneo, comida congelada e industrializada, pretzels, entre outros. Em resumo, comidas que não se parecem em nada com alimentos naturais. Parece algo simples, mas que poucos colocam em prática por subestimarem a quantidade real consumida ao longo do dia e por não terem noção do tamanho do estrago que estes alimentos provocam em nosso organismo. Qual o impacto que alimentos ultraprocessados tem sobre o ganho de peso? Um estudo espanhol publicado em novembro/2020 02 “American Journal of Clinical Nutrition”, acompanhou um grupo de 8451 pessoas por quase uma década e verificou a quantidade de porções de alimentos ultraprocessados que foi consumida diariamente por estes indivíduos.Verificou-se ao final deste estudo que 23% daqueles com peso inicialmente saudável passaram a ter sobrepeso ou obesidade. Aquelas que consumiram elevadas quantidades de alimentos ultraprocessados, de 6 ou mais porções diárias, de acordo com o estudo, apresentaram um risco 26% maior de ganhar peso em comparação ao grupo que nunca ou raramente consumiam este tipo de comida. É muito! Por que alimentos ultraprocessados engordam tanto? Para realçar o sabor dos mesmos e por conta do excesso de conservantes e substâncias estabilizadoras, utiliza-se uma quantidade muito maior de açúcar, gordura e sódio por grama de alimento em comparação àqueles minimamente industrializados ou caseiros que utilizam ingredientes naturais. Na sua maioria eles contem baixa quantidade de fibras, que poderiam auxiliar no processo de saciedade e o pior, a combinação de altas quantidades de gordura e açúcar pode ser extremamente viciante para nosso paladar.Além disto, um outro fator que determina a alta ingesta destes alimentos calóricos está na facilidade de acesso aos mesmos, em qualquer mercado de esquina ou balcão de restaurante por quilo lá estarão estes petiscos, que são relativamente baratos, vendem em pacotes cada vez maiores, muitas vezes não necessitam de refrigeração e já estão prontos ou praticamente prontos para serem consumidos. Esta extrema disponibilidade aumenta a probabilidade de estarmos consumindo calorias adicionais sem que prestemos atenção. Quais estratégias devemos tomar para evitar alimentos ultraprocessados em nossa dieta? A conclusão de que temos que cortar alimentos ultraprocessados parece meio óbvia, mas por que então não conseguimos fugir deles na prática? Para não cairmos nestas armadilhas, devemos nos empenhar em gastar um pouco mais de tempo (e talvez dinheiro, infelizmente) em elaborar uma lista de supermercado contendo mais alimentos frescos e integrais, levarmos lanchinho saudável de casa ao invés de contar com as opções práticas encontradas lá fora, dedicarmos algum tempo no final de semana para cozinhar e deixar feijão, carnes e legumes congelados para serem consumidos ao longo da semana e por aí vai.A falta de tempo dos tempos modernos nos leva a procurar por alimentos mais práticos. Entretanto, isto não pode sempre servir de desculpa para fugirmos da essência da reeducação alimentar, saúde deve ser sempre prioridade e temos que dedicar um certo tempo do dia para nos cuidarmos de tal forma que se torne uma rotina, como tomar banho ou cuidar do orçamento da casa. Consumir alimentos ultraprocessados de vez em quando não é proibido, porém evite “plantar armadilhas” em sua casa ou local de trabalho. Sentiu muita vontade de comer um doce ou batata chips que faz um bom tempo que não come? Compre uma quantidade pequena, apenas para matar à vontade ou divida um pacote maior entre mais pessoas, evite manter grandes quantidades destes alimentos por perto. Como dissemos antes, além de serem muito calóricos, tais petiscos são muito viciantes e é muito provável que você não irá conseguir se controlar e parar de comer enquanto o pacote inteiro não acabar. O que os olhos não vêem o estômago e o cérebro não sentem! Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Prolactina aumentada no sangue: o que significa?
A prolactina é um hormônio produzido pela hipófise, glândula situada abaixo do cérebro e que produz uma série de outros hormônios que regulam a função de outras glândulas como tireóide, gônadas e suprarrenais. No caso específico da prolactina, ela é a responsável nos mamíferos por aumentar a produção de leite pelas glândulas mamárias após o parto. Durante a fase de aleitamento materno, este hormônio também exerce efeito inibitório sobre os hormônios sexuais da mãe, o que leva a supressão dos ciclos menstruais, diminuição da fertilidade e da libido neste período, atuando como um método contraceptivo natural (embora não 100% infalível). Durante o aleitamento, esta inibição dos hormônios sexuais é até interessante, visto ser muito provável que uma nova gestação neste momento não seja desejável para a maioria das mulheres. A questão é que existem situações fora da fase de lactação que induzem aumento da prolactina, em ambos os sexos, e que podem trazer repercussões bastante desagradáveis. O que o aumento da prolactina pode ocasionar? O excesso de prolactina pode levar a uma série de manifestações clínicas, como galactorréia (que é a saída de leite das mamas – em mulheres que já amamentaram este achado pode não ter tanto significado, mas em homens é altamente sugestivo), diminuição do desejo sexual, da lubrificação vaginal, irregularidade menstrual, impotência, redução do volume ejaculado, alterações de humor, além de ser uma das principais causas de infertilidade tanto em mulheres quanto em homens. Em crianças e adolescentes pode haver atraso de puberdade. Com o passar do tempo, o excesso de prolactina e sua ação inibitória sobre hormônios sexuais femininos e masculinos pode levar à redução progressiva de massa óssea com risco de osteoporose e ganho de peso devido substituição de massa muscular por tecido adiposo. Quais são as causas de aumento da prolactina? Com o maior acesso da população a exames laboratoriais, solicitados muitas vezes em exames de rotina por especialistas médicos como ginecologistas e clínicos gerais, tem se descoberto cada vez mais pacientes portadores desta condição e muitos, inclusive, sem qualquer manifestação clínica. A principal causa em nosso meio de aumento de prolactina está relacionada a tumores de hipófise produtores deste hormônio, os chamados Prolactinomas. De acordo com o Estudo Brasileiro Multicêntrico sobre Hipeprolactinemia, 56,2% dos casos de aumento de prolactina eram devido a estes tumores, na grande maioria de pequenas dimensões (microprolactinomas, tumores com menos de 10 mm de diâmetro confirmados por exame de ressonância magnética ou tomografia computadorizada) e que raramente crescem a ponto de oferecer risco de se expandir sobre estruturas do sistema nervoso ao redor, embora existam casos de grandes lesões que podem levar a sintomas como dores de cabeça persistentes e progressivas e compressão de nervo óptico com perda de campo visual. A segunda principal causa de aumento de prolactina em nosso meio, respondendo por cerca de 14,6% dos casos, está relacionada ao uso de medicamentos que aumentam o nível deste hormônio, principalmente fármacos psicotrópicos como ansiolíticos e antidepressivos (fluoxetina, paroxetina, alprazolam, amitriptilina, etc), antipsicóticos/ neurolépticos (haloperidol, clorpromazina, risperidona, tioridazida, etc), anticonvulsivantes (fenitoína, ácido valpróico), além de alguns anti-hipertensivos, medicamentos para gastrite e refluxo gastroesofágico, estrógeno (dos anticoncepcionais e de reposição hormonal na menopausa), maconha, opióides, etc. Portanto, antes de se chegar a qualquer conclusão diagnóstica, devemos verificar se não é o uso destas medicações que poderia estar interferindo na análise destes resultados. Muitas vezes, inclusive, por conta do risco de suspensão do uso destes remédios e por não haver uma droga substituta ideal (por exemplo, em muitos pacientes com quadros psiquiátricos mais graves), o diagnóstico acaba sendo presumido e assume-se o risco de manter os níveis de prolactina elevados. Outras doenças podem provocar elevação da prolactina como no hipotireoidismo mal controlado e existem situações em que o hormônio está aumentado, porém de maneira assintomática ou minimamente sintomática, como em uma entidade clínica chamada de macroprolactinemia, onde as moléculas de prolactina “grudam” umas nas outras formando moléculas gigantes (polímeros), que nos ensaios laboratoriais dão diagnóstico falso-positivo de aumento de prolactina. Embora controverso, deve-se dosar a prolactina com o paciente em repouso de pelo menos 30 minutos e evitar coleta deste hormônio durante a fase de lactação, após ato sexual recente, noites mal dormidas, com piercing em mamilos, em vigência de episódios de dor de qualquer origem, etc, pois são outros fatores que podem elevar a prolactina sem configurar uma doença na glândula hipófise. Como tratar o aumento da prolactina? Nos casos relacionados a tumores de hipófise (Prolactinomas), o tratamento é com uso de medicamentos que tem a função de tanto baixar os níveis destes hormônios e tratar os sintomas, como de reduzir e tornar o tumor indetectável nos exames de imagem, que seriam os objetivos terapêuticos. A droga de escolha na grande maioria dos casos e disponível em nosso país é a Cabergolina, sendo a Bromocriptina uma medicação de segunda escolha, por ser menos eficaz e apresentar mais efeitos colaterais. Muito raramente a cirurgia será o tratamento de escolha, a grande maioria dos pacientes responderá muito bem ao uso do medicamento, mesmo nos casos de grandes tumores. Entretanto, como dissemos antes, é necessário afastar primeiro outras causas que possam elevar os níveis de prolactina, como uso de medicamentos que alterem seus níveis e de macroprolactinemia, por exemplo. É comum encontrarmos pacientes sendo tratados como Prolactinoma e a real causa não ser esta. Profissionais não habituados a tratar esta entidade descobrem através de exames de imagem pequenos nódulos de hipófise, completamente assintomáticos, de evolução benigna e que não produzem hormônios, e muitas vezes acabam por confundir este com um tumor produtor de prolactina, sem checar antes outras causas que poderiam elevar a taxa deste hormônio. Se possível, procuramos substituir a medicação que eleva a prolactina por outra sem este efeito. Portanto, prolactina aumentada no sangue deverá ser acompanhada por médico endocrinologista, pois este é o profissional mais qualificado para compreender as reais causas desta elevação e de oferecer o tratamento mais adequado. Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Doenças da Tireóide e Gestação
A gestação é um momento muito especial, mas também delicado, onde diversas situações clínicas que acometem a mãe podem refletir negativamente sobre o feto. Dentre estas doenças, destacamos as doenças da tireóide que dividimos em dois grupos principais: Hipotireoidismo e gestação A deficiência de hormônios tireoidianos maternos, se não adequadamente tratada, pode trazer graves repercussões a gestação e ao desenvolvimento do feto, com aumento na incidência de parto prematuro, baixo peso ao nascer, descolamento de placenta, sofrimento fetal durante o trabalho de parto, atraso no desenvolvimento intelectual do bebê e, em casos extremos, até graves quadros de retardo mental. O hipotireoidismo mal controlado relaciona-se também a maiores taxas de infertilidade materna e abortamento. É fundamental, portanto, que nas mulheres portadoras de hipotireoidismo que pretendam engravidar, a dose da levotiroxina (hormônio tireoidiano sintético utilizado para reposição) esteja acertada antes da concepção ou assim que o diagnóstico de gravidez for conhecido e jamais deve ser interrompida antes e durante a gestação! A principal causa materna de hipotireoidismo, disparada, é de origem autoimune, chamada de Tireoidite de Hashimoto, onde anticorpos anômalos produzidos pelo sistema imunológico “atacam” a tireóide e levam à sua falência. A maioria das mulheres que tem esta doença já a possuem previamente à gravidez. Entretanto, outro fator que deve ser levado em consideração é a deficiência de iodo na dieta, já que este elemento é essencial na síntese de hormônios tireoidianos. Estudos mostraram que é alta a frequência de baixos níveis de iodo em gestantes e isto também poderá aumentar o risco daquelas complicações já citadas, além de promover aumento significativo de volume da glândula tireóide materna, conhecido por bócio. É obrigatório que os polivitamínicos utilizados pelas gestantes contenham, no mínimo, 150 mcg de iodo, de acordo com recomendações da American Thyroid Association. Hipertireoidismo e gestação O outro grupo de doenças da tireóide que acometem a gestação está relacionado ao excesso de hormônios tireoidianos, também chamada de tireotoxicose. Duas são as principais causas: a Tireotoxicose Gestacional Transitória e a Doença de Graves. A Tireotoxicose Gestacional Transitória é uma situação relativamente frequente e, na maioria dos casos, não traz maiores repercussões materno-fetais e não deve ser tratada. É uma situação que ocorre principalmente no primeiro trimestre da gestação mediada pelo estímulo do hormônio Beta-HCG, produzido pela placenta, que estimula a tireóide materna a produzir mais hormônios e é considerado fisiológico na maioria dos casos. É mais comum em gestações múltiplas (gemelares) e pode vir acompanhado por quadro de vômitos excessivos. As alterações laboratoriais costumam ser discretas, muitas vezes apenas com redução nos níveis de TSH. Já o hipertireoidismo induzido por autoanticorpos que estimulam a tireóide a produzir hormônios em quantidades exageradas, chamada de Doença de Graves, é uma situação clínica mais rara, porém mais perigosa do que a anterior. Ela aumenta o risco nas grávidas de hipertensão gestacional com pré-eclâmpsia, eclampsia e insuficiência cardíaca, além de maior incidência de abortamento, parto prematuro, baixo crescimento do bebê, arritmias cardíacas fetais e no recém-nascido, descolamento de placenta, má-formações congênitas e óbito fetal. Nestes casos, o uso de medicamentos poderá ser indicado. Em resumo, doenças da tireóide podem levar a graves complicações materno-fetais se não adequadamente tratadas e seguidas em conjunto por obstetra e endocrinologista. Nenhuma destas situações, todavia, é impeditiva para a realização do sonho de ter um bebê, mas é necessário à gestante se cercar de todos os cuidados necessários. Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Dietas para perda de peso: verdades e mitos
Se existe um assunto polêmico e que nunca acaba diz respeito às dietas para perda de peso. Como mais da metade da população brasileira está acima do peso e muitos já tentaram emagrecer de diversas maneiras e, na maior partes das vezes, sem sucesso ou apenas de maneira temporária, este tópico propicia o surgimentos de inúmeros “gurus do emagrecimento”, muitos sequer são especialistas no assunto e possuem um entendimento raso sobre a complexidade dos mecanismos que levam a pessoa a engordar e a não conseguir perder peso definitivamente, explorando de maneira leviana as angustias desta população. Antes de começar, gostaria de dizer que não há receita pronta de emagrecimento que seja válida para todos os pacientes. Quem se propõe a vender esta ideia, através de fórmulas e pacotes prontos para todos, pode até acertar em muitos casos mas vai falhar em inúmeros outros (repare e veja que os tais “gurus” só mostram os casos de sucesso, mas nunca os que deram errado, e eles existem!). Cada paciente é único e hoje as principais associações médicas buscam entender melhor a obesidade, classificar os diferentes padrões desta doença e propor variados esquemas de dietas para perda de peso. Alguns especialistas propõem a existência de dezenas de fenótipos diferentes para classificar o sobrepeso e obesidade (ex: hiperfágicos, comedores noturnos, compulsivos periódicos, responsivos a uma determinada medicação, etc) e isto ainda não é consensual. O excesso de peso é um assunto ainda pouco compreendido, não existe uma dieta “mágica” que vale para todos ou um único hormônio responsável por tudo. Só conhecemos ainda a “ponta do iceberg” e ainda há muito por ser descoberto. Então, nestes casos o que fazer? Entrar em desespero? Ou fazer como um professor meu dizia “na falta de um consenso, utilizemos o bom senso” e as informações que temos em mãos? O que é verdade entre as dietas para perda de peso? 1- Aumentar o consumo de fibras na dieta: O consumo de porções generosas de hortaliças como couve, alface, rúcula, verduras como pepino e tomate e moderadas de carboidratos integrais, além de auxiliar no bom funcionamento do intestino, aumentam o volume alimentar ingerido e a sensação de saciedade. O ideal é que cerca de metade do volume do prato seja composto por verduras e legumes. Cada refeição deve conter algum conteúdo de fibras. Pessoas que ingerem pouca quantidade destes alimentos tendem a compensar a falta de volume destes alimentos consumindo mais carboidratos simples, como arroz e massas não integrais, por exemplo. 2- Consumir proteínas no café-da-manhã: adicionar ao café-da-manhã carnes magras como peito de peru, atum, peito de frango, além de ovo cozido ou mexido, queijos com baixo teor de gordura, tofu, etc, aumentam a sensação de saciedade ao longo do dia e diminuem as chances de “beliscar” alimentos calóricos nos intervalos. É preciso, entretanto, saber dosar a quantidade destes alimentos também, não é à vontade. 3- Cortar frituras: este é um dos grandes vilões da dieta e facilmente conseguimos cortar estas fontes calóricas, consumindo alimentos grelhados, cozidos ou assados. As chamadas “fritadeiras elétricas” que não usam óleo são bem vindas também. Ao se preparar uma carne ou batata, por exemplo, em fritura por imersão, ou pior, fritos e empanados, a caloria dos alimentos pode dobrar ou até mesmo triplicar! Além disto, frituras são ricas em gorduras saturadas, que poderão aumentar a formação de placas de gordura na parede das artérias e, consequentemente, o risco de doenças cardiovasculares 4- Reduzir drasticamente o consumo de açúcares simples da dieta: Açúcares de qualquer espécie (refinado, mascavo, demeraro), balas, doces, refrigerantes e sucos artificiais, podem dificultar bastante o processo de perda de peso. São rapidamente absorvidos e induzem aumento exagerado dos níveis de insulina, que por sua vez promove aumento de peso e dificulta a quebra das reservas de gordura estocadas, além de serem “viciantes” para o paladar. Com o passar do tempo queremos consumir quantidades cada vez maiores destes alimentos e passamos a não conseguir mais ficar um único dia sem ingerí-los. Seu consumo não é proibido, mas deve ser bem esporádico. 5- Não abusar no álcool: Bebidas alcoólicas são alimentos bastante calóricos, de pobre valor nutricional e, em excesso, podem levar a doenças no fígado, pâncreas, estômago, etc. Cada lata de cerveja tem, aproximadamente a mesma caloria de um pão francês e é muito comum o consumo sem controle destas bebidas, principalmente em eventos sociais, podendo o consumo ultrapassar facilmente 1000 kcal em um único dia! 6- Preferir alimentos naturais aos industrializados: comida congelada, sucos prontos, snacks, biscoitos, entre outras guloseimas, de maneira geral, contém muito mais açúcares e gorduras para realçar o sabor e dar consistência diferenciada em comparação aos alimentos caseiros, além de também serem “viciantes”. Procure sempre preparar suas refeições ou, ao menos, opte por alimentos preparados de baixa caloria (light). Atenção ao rótulo dos alimentos! 7- Beber água em intervalos regulares: água não mata a fome, mas evitar a sensação de sede pode ajudar a diminuir o consumo de comida. Quando estamos com sede, podemos confundir esta sensação com fome e aumentar o consumo calórico acidentalmente. Procure beber de 6 a 8 copos de água por dia. 8- Consumir uma refeição “especial” na semana: Comer um prato de massa, um churrasco ou duas fatias de pizza em uma refeição de final de semana, por exemplo, não é pecado. Pelo contrário, sabendo consumir estes alimentos com moderação e nos “premiando” na hora certa, diminuímos o risco de cair na monotonia alimentar ou gerar situações de desconforto e isolamento em eventos sociais e familiares e isto, com o passar do tempo, é um dos maiores responsáveis pelo abandono do tratamento. Ao adotarmos dietas muito restritivas por longos períodos, parece não haver muito benefício na perda de peso a médio e longo prazo, o metabolismo parece se adaptar e este tipo de padrão de ingesta calórica e passa a “economizar” mais energia com o tempo. Fornecer um pouco mais de calorias em refeições ocasionais pode ser uma maneira de driblar este efeito e “acelerar” novamente o gasto energético.
Transtorno Compulsivo Alimentar Periódico (TCAP) – entenda o drama
A obesidade é provocada, em linhas gerais, por um desequilíbrio entre ingesta calórica e gasto energético. Do lado da balança em que predomina a ingesta calórica excessiva há vários padrões alimentares incorretos, mas alguns se destacam pela relação muito estreita com distúrbios psicológicos, dentre eles encontra-se o Transtorno Compulsivo Alimentar Periódico (TCAP), uma entidade vivida de forma dramática por muitos pacientes que se encontram acima do peso, mas frequentemente negligenciada durante seu tratamento. E o que é o TCAP? O TCAP é classificado como um Transtorno Alimentar, juntamente com outras doenças psiquiátricas ligadas a este tópico, como a Bulimia Nervosa, a Anorexia Nervosa e outros transtornos alimentares sem classificação. É um distúrbio em que o indivíduo ingere de maneira rápida e incontrolável uma grande quantidade de alimento em um curto período de tempo e, logo após o episódio, sente culpa e/ou repulsa por si próprio. Não há, entretanto, em comparação a Bulimia Nervosa, hábitos purgativos como tentativa de induzir vômito ou uso de laxantes. A quantidade de alimento ingerida costuma ser muito maior do que a consumida normalmente por outras pessoas e isto desperta um sentimento de vergonha no portador da doença, o que faz com que este hábito seja solitário na maioria dos casos, longe da vista dos seus pares. O constrangimento também pode impedir que o paciente relate estes episódios compulsivos ao médico, tornando seu diagnóstico e tratamento ainda mais difícil. De acordo com a 4ª edição do DSM – IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – TR) os critérios para o diagnóstico de TCAP são: A – Episódios recorrentes de compulsão alimentar periódica (excesso alimentar e perda de controle) B – Comportamentos associados à compulsão alimentar (pelo menos 3): 1- Comer rapidamente 2- Comer até sentir-se cheio 3- Comer grandes quantidades de comida mesmo sem estar faminto 4- Comer sozinho por embaraço pela grande quantidade de comida 5- Sentir repulsa por si mesmo, depressão ou demasiada culpa após a compulsão C – Acentuada angústia pela compulsão alimentar D – Frequência de duração da compulsão alimentar: média de 2 dias por semana por 6 meses E – Não se utiliza de métodos compensatórios inadequados (ex: purgação) Estima-se que no Brasil cerca de 6,5% dos homens e 5,5% das mulheres que apresentam sobrepeso ou obesidade tenham critérios para TCAP. Quanto mais acima do peso o indivíduo, maior será a frequência de TCAP e é mais comum que este grupo de pacientes sofram de outros transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, tenham traços de personalidade impulsiva, baixa autoestima, entre outros, em comparação a outros indivíduos obesos. Além disto, é mais comum que seus horários alimentares sejam caóticos, que já tenham se submetido a diversos tipos de tratamentos dietéticos, incluindo dietas “da moda” e alguns métodos radicais, refletindo uma tendência de pensamento de “ou tudo ou nada”, ou seja, não conseguem ter uma atitude de moderação com relação ao hábito alimentar. Como abordar o indivíduo com TCAP? O tratamento do TCAP não deve centrar-se apenas na figura do médico endocrinologista, ele deve ser multidisciplinar com acompanhamento obrigatório do psicólogo, nutricionista e médico psiquiatra. Cabe ao nutricionista verificar a distribuição dos horários da dieta, a composição da mesma, quais os horários mais frequentes dos episódios compulsivos, que tipo de alimento serve para disparar estas crises e quais auxiliarão a aumentar a sensação de saciedade, com que velocidade o indivíduo come, como é a mastigação, verificar o diário alimentar do paciente, suas preferências alimentares, etc. O psicólogo, na maioria das vezes, optará por uma linha de tratamento conhecida por terapia cognitivo comportamental, onde abordará quais os “gatilhos” emocionais para estes episódios, como ele se sente em relação ao comer compulsivo, verificar a concomitância de outros distúrbios psicológicos associados e que possam estar favorecendo a recorrência da compulsão alimentar e propor técnicas para melhora do autocontrole do indivíduo. O médico endocrinologista, em conjunto com o psiquiatra, abordará o tratamento medicamentoso, que costuma resultar em ótimo benefício para este grupo de pacientes, além de verificar a concomitância de outras doenças que podem surgir em um indivíduo com excesso de peso e que podem levar a piora do aumento do apetite, como o diabetes, por exemplo. Acima de tudo, o paciente precisa ser colaborativo e confiar na equipe que está acompanhando seu caso, relatar em detalhes seus hábitos alimentares e como se sente diante deles é a chave para o sucesso terapêutico, por mais difícil (e constrangedor) que isto inicialmente possa ser. Desta forma, o diagnóstico do TCAP, quando ele existir, poderá ser feito de maneira acertada e o tratamento melhor direcionado. Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Corticoides: muito cuidado ao usar!
Os corticoides são medicamentos bastante populares em nosso meio e, muito provavelmente, em algum momento da vida você já deve ter usado. Eles são derivados sintéticos dos corticosteróides, hormônios produzidos por nosso organismo e são usados principalmente como potentes anti-inflamatórios e imunossupressores. Corticoides auxiliam no tratamento de uma série de doenças, como Asma, Artrite Reumatóide, Lupus, Púrpuras, Meningites, infecções generalizadas (Sepse), são indicados em pacientes transplantados, como adjuvante de quimioterápicos no tratamento de câncer, entre muitas e muitas outras funções. Sem dúvida nenhuma a história da medicina não seria a mesma sem o uso dos corticoides, eles já salvaram muitas vidas e amenizaram a dor e o desconforto de muitas pessoas, porém… Os corticoides em doses excessivas podem fazer mal à saúde! Corticoides estão presentes em diversas apresentações, como em pomadas, cremes, cápsulas e aerossóis inalatórios, sprays nasais, comprimidos, xaropes e injeções. Conhecemos eles por diversos nomes: Prednisona, Dexametasona, Betametasona, Hidrocortisona, Prednisolona, Triancinolona, Deflazacort, Mometasona, Beclometasona, Budesonida, etc. Como são relativamente baratos, facilmente encontrados e muito eficazes em melhorar os sintomas de diversas doenças, são muitas vezes utilizados de forma indiscriminada tanto por pacientes como por muitos médicos. É muito frequente vermos pessoas usando corticoides para tratar simples quadros de resfriados, dores articulares ou pequenas lesões de pele que poderiam ser controladas de formas menos agressivas ao organismo. Se usados por um período muito curto e em uma dosagem baixa, provavelmente não haverá maiores prejuízos, o problema é que, o que observamos é o uso repetitivo e prolongado em qualquer situação clínica, sem nenhuma preocupação. E não são poucos os efeitos colaterais do uso indiscriminado de corticoides. Eles podem provocar a Síndrome de Cushing, situação clínica potencialmente grave induzida pelo excesso de corticoides, neste caso secundário ao uso de medicamentos contendo este derivado hormonal. Os principais sinais e sintomas são: – Aumento nas taxas de açúcar no sangue e descompensação do diabetes – Elevação da pressão arterial – Piora do perfil do colesterol e triglicérides – Maior risco de contrair infecções oportunistas, como candidíase, infecções bacterianas e virais graves – Ganho de peso excessivo – Osteoporose – Aumento de pelos em mulheres, oleosidade da pele e acne – Fraqueza muscular – Hematomas e estrias violáceas – Gastrites e úlceras no estômago e duodeno – Aumento de gordura no fígado – Restrição de crescimento e puberdade precoce em crianças – Irregularidade menstrual e infertilidade – Catarata subcapsular – Alterações neurológicas e comportamentais, como insônia, quadros depressivos e psicose Outro problema relacionado ao uso de corticoides está ligado a sua interrupção abrupta após uso em altas dosagens e por longos períodos, como observamos em casos mais graves de asma, doenças reumáticas e em pacientes internados. Nestas situações específicas, a retirada do corticoide deve ser feita de maneira gradual, pois há o risco do paciente apresentar quadro grave de insuficiência adrenal se a parada for feita repentinamente. A insuficiência adrenal é uma situação clínica provocada pela falta de corticoides produzidos pelas glândulas suprarrenais, pois o uso de altas dosagens de corticoides sintéticos pode inibir a função destas glândulas por um certo período e provocar sintomas como hipoglicemias, tonturas, náuseas, vômitos, queda de pressão que podem ser graves e levar a um quadro choque. E caso realmente seja necessário o uso de corticoides, há alguma maneira de amenizar os sinais e sintomas? Como dissemos antes, corticoides são muito úteis em medicina, mas são como uma faca de dois gumes. O limite entre a dose terapêutica e a tóxica nem sempre é claro, mas existem algumas medidas que podem diminuir o risco de efeitos colaterais como a escolha de corticoides de ação local, como inalatórios, para prevenção de quadros asmáticos mais graves, por exemplo. Esta medida é muito mais segura ao paciente do que permitir que o quadro piore e sejam necessárias frequentes passagens em pronto-socorro para uso de corticoides injetáveis na urgência e posterior continuidade do tratamento com alguma formulação oral, por uma ou mais semanas, para estabilização da doença. Em alguns casos, nem sempre formulações de ação local, como as inalatórias, sprays e cremes irão controlar o quadro clínico em questão e será mesmo necessário indicar o uso de corticoides mais potentes e de ação sistêmica. Nestas situações, é importante que o paciente também passe a acompanhar em conjunto com o endocrinologista para monitorar e tratar as possíveis complicações que possam vir a ocorrer. Algumas formulações orais mais recentes e com menos efeitos colaterais, como o Deflazacort, por exemplo, podem ser utilizadas em alguns casos, mas ainda assim devem ser prescritas com cuidado. Corticoides orais e injetáveis, como acabamos de ver, são mais potentes e também podem provocar muito mais efeitos colaterais em todo organismo comparado às outras formulações. Obviamente isto não significa que uso de corticoides de efeito local são de uso livre, mesmo estes, se utilizados repetitivamente e por um longo período, podem trazer sérios danos à saúde. Mesmo sendo considerados de efeito local, algum efeito sistêmico acaba acontecendo com o passar do tempo. Nunca se automedique! E, infelizmente, um último aviso, para que os pacientes observem também a conduta de seus médicos, principalmente daqueles que para qualquer dor ou tosse tem uma receita pronta de comprimido ou xarope a base de corticoide. Questione seu médico se o uso é realmente necessário, se há outra opção de tratamento e, se a resposta do seu médico não for satisfatória e você ainda tiver dúvidas, peça uma segunda opinião. Corticoides são muito importantes, mas não podem ser consumidos que nem água, devem ser utilizados com racionalidade e cautela! Gostou deste artigo? Clique aqui e cadastre-se para receber dicas de saúde e informações sobre endocrinologia!
Densitometria Óssea – por que é tão importante?
O exame de Densitometria Óssea é essencial para avaliação do metabolismo ósseo. Através deste exame, podemos determinar como vai a saúde do esqueleto, se estamos ganhando ou perdendo massa óssea, e isto é fundamental para o acompanhamento de doenças como a osteoporose e de pacientes com maior risco de desenvolver este problema de saúde, que pode se tornar muito grave e incapacitante por conta de suas consequentes fraturas. Como o nome sugere, este exame quantifica a densidade óssea ou a quantidade de osso medida em uma determinada área do esqueleto. Quanto menor a densidade, mais frágil se torna o osso e mais suscetível ele se torna a fraturas. No caso da osteoporose, mais poroso ele fica, ou para facilitar nosso entendimento, acaba como um pedaço de madeira “comido” por cupins! Como é feito o exame de Densitometria Óssea? Trata-se de um exame de imagem realizado através de um aparelho de densitometria, que irá medir a densidade óssea de 4 locais diferentes do esqueleto: coluna lombar, fêmur proximal (parte do fêmur que integra o quadril), rádio (osso do antebraço – mede a densidade de uma região próxima ao punho) e também pode ser feita a medida do corpo inteiro, no caso de investigação de doenças osteometabólicas em crianças. Mais comumente é feita apenas a análise da coluna lombar e do fêmur proximal. Existem outros tipos de aparelhos que medem densidade óssea de outros locais, como calcanhar, por exemplo, que por serem menos utilizados não serão aqui descritos. Da mesma forma, os equipamentos de Densitometria Óssea poderão avaliar outros parâmetros, como composição corporal de massa gorda, massa magra, etc, que escreverei sobre este assunto em outro artigo em breve. O paciente permanece deitado, como na foto acima, ou com o braço apoiado sobre a maca do equipamento (para medida de densidade do rádio) e as imagens são adquiridas através de uma técnica chamada DXA (absorciometria por dupla emissão de raios X). É um exame rápido, indolor e, o mais importante, seguro, pois utiliza uma quantidade muito baixa de radiação, de tal forma que não é necessário uso de vestimentas de proteção contra radiação. Para quem está indicado o exame de Densitometria Óssea? As principais indicações para solicitação do exame de densitometria óssea são: – Mulheres com idade ≥ 65 anos – Homens com idade ≥ 70 anos – Mulheres acima dos 40 anos, na transição menopausal e homens acima dos 50 anos, que possuam algum fator de risco para evoluir com osteoporose, tais como os portadores de: Doenças endocrinológicas como: hipertireoidismo, diabetes, deficiência de hormônios masculinos ou femininos não tratados (hipogonadismo), portadores de Doença de Cushing (produção excessiva de cortisol), deficiência de hormônio de crescimento (GH), excesso de hormônio das paratireóides ou PTH (hiperparatireoidismo). Insuficiência renal e do fígado (cirrose) Doenças ou situações gastrintestinais que levem a redução na absorção de cálcio e vitamina D, tais como: Doença de Crohn, Doença Celíaca (intolerância grave ao glúten), pós-operatório de algumas modalidades de cirurgia bariátrica (neste caso, inicia-se o acompanhamento com densitometria a partir do segundo ano após a cirurgia, independentemente da idade). Doenças reumáticas como artrite reumatoide, lúpus e espondilite anquilosante Tabagismo Alcoolismo Histórico pessoal de fraturas de baixo impacto Histórico de osteoporose de surgimento precoce ou fraturas de baixo impacto em familiares de primeiro grau. Uso de medicamentos que aumentem o risco de osteoporose, como corticoides, fenitoína, fenobarbital, usuários de alta dosagem de hormônios tireoidianos (ex: em alguns pacientes em seguimento de câncer de tireóide), etc. Outras doenças e situações: Anorexia, imobilização prolongada (ex: pacientes sequelados por doenças neurológicas e acamados), AIDS, pacientes transplantados, câncer com metástases ósseas, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC – “enfisema”), Mieloma Múltiplo, pacientes muito magros (peso < 50 kg), etc. – Acompanhamento de pacientes em tratamento medicamentoso para osteoporose e osteopenia (perda de massa óssea menos acentuada e que antecede a osteoporose), com a finalidade de monitorar a eficácia da terapia proposta. – Mulheres que interromperam terapia de reposição com hormônios femininos após a menopausa. Para pacientes que tem indicação de realizar Densitometria Óssea, o seguimento através deste exame deve ser feito anualmente, ou em intervalos mais curtos em casos excepcionais. Como interpretar o exame de Densitometria Óssea O exame de Densitometria Óssea utiliza 3 parâmetros de medidas: T-Score (compara a densidade óssea do paciente com a média da população adulta jovem), Z-Score (compara a densidade óssea do paciente com a média de sua própria faixa etária) e Densidade Mineral Óssea (DMO – em gramas por cm²). O parâmetro mais utilizado é o T-Score, que adotamos para mulheres acima dos 40 anos de idade e homens acima dos 50 anos de idade, e pode ser interpretado da seguinte maneira: – Exame normal: T-Score entre +1 e -1 desvio-padrão (DP) – Osteopenia: T-Score entre -1 e -2,5 DP – Osteoporose: T-Score abaixo de -2,5 DP Já para avaliarmos a evolução da densidade óssea ao longo dos anos, utilizamos a medida de Densidade Mineral Óssea (DMO), para sabermos se estamos ganhando ou perdendo massa óssea, entretanto é importante o paciente saber que, para obtermos esta comparação… O exame de Densitometria Óssea deverá ser sempre feito no mesmo equipamento!!! E, preferencialmente, pelo mesmo técnico em densitometria. Isto porque, cada equipamento de cada serviço que realiza este exame apresenta diferenças de calibragem para aquisição das imagens. É como se pesar em várias balanças seguidas, cada uma com calibragens distintas e que, muito provavelmente, irão informar diferentes medidas de peso, com pequenas variações. Porém, no caso da densitometria, estas mínimas diferenças podem interferir em muito na análise comparativa entre os exames. Nestas situações, o médico acaba sem saber com exatidão se um paciente está respondendo bem ou não a um determinado tipo de tratamento, ao comparar exames de equipamentos diferentes, por exemplo. Entretanto, em alguns casos, é necessário mudar o serviço onde se realiza o exame, principalmente se a qualidade do exame feito for inadequada (ex: mau posicionamento do paciente na maca, erros grosseiros de interpretação, etc) e, nestas ocasiões, é preferível iniciar um novo seguimento em um serviço qualificado para
